Edneia Brazão

Cresceu nas Aldeias Infantis SOS, formou em Ciências Musicais, no Brasil, ganhou destaque no festival de cinema de Gramado e, contou a sua história em um entrevista à Jornal A Nação.
Quando Edneia Brazão terminou o ensino secundário, ainda adolescente, obteve uma bolsa para continuar os estudos no Brasil. Mas apesar do ensino no Brasil ser gratuito, não perdeu o suporte da Aldeias Infantis SOS, que, dentro das possibilidades, manteve um apoio complementar, garantindo-lhe estabilidade nos seus estudos. Se a cultura do país-irmão não é muito diferente da cabo-verdinana, a humidade e o frioo que a Edneia foi encontrar em Pelotas, na cidade onde se instalou, no Rio Grande do Sul, foram as grandes surpresas, para a menina criada em São Domingos, interior da ilha de Santiago.
Confessa que ser recebida, com temperaturas de 1 grau negativo, não foi o melhor cartão de boas-vindas no país tropical. “Não foi fácil, porque eu e o frio temos um problema(risos), inclusive, fiquei doente, logo no início, corpo inchado, enfim”, diz, ao telefone para o A NAÇÃO, a partir de Pelotas, na região sul do Brasil. Mas tirando isso, confessa: “Não foi um grande ‘uau! Estou num país diferente’, mas para alguém que cresceu sempre rodeado de pessoas, de início não foi fácil fazer amigos e a minha adaptação foi mais difícil neste sentido.”

A menina da Aldeias Infantis SOS
Natural dos Órgãos, na região de João Teves, Edneia Brazão cresceu numa família de mãe solteira e com oito filhos para criar. A mãe trabalhava como peixeira e criava sozinha os filhos. O pai era ausente, e a família paterna, apesar de ter melhores condições, nunca prestou apoio. Em virtude das vicissitudes da vida, o acolhimento na Aldeia foi a única alternativa encontrada para resgatar a pequena Edneia que, aos 8 anos, já experimentara dificuldades que nenhuma criança devia conhecer. Assim, pelas mãos da enteada de uma já falecida tia, a Edneia chegava à Aldeia. Acompanhada da irmã de 8 meses, foi das primeiras a ser acolhida na Aldeia Infantil SOS em São Domingos – a segunda em Cabo Verde. “Lembro-me, que na altura a minha mãe nos entregou e foi-se embora.”
Casa nº8
Edneia ficou na casa número 8. “Quando somos crianças, a adaptação é mais fácil, a nossa cabeça ‘deleta’ as coisas desagradáveis que vivemos, e sabemos que temos uma família. E eu apaguei muitas coisas da minha vida antes da Aldeia.” A vida na Aldeia, confessa, “não foi às mil maravilhas, teve altos e baixos, mas também não foi ruim, acho.” Com certeza, viver longe da nossa família foi a parte mais ruim de toda esta história. Sabíamos que as pessoas à nossa volta não eram a nossa família, mas a Aldeia era um lugar que existia para nos dar uma vida melhor e apoiar as famílias. Sempre nos disseram que tínhamos uma família biológica – a nossa mãe, os nossos irmãos – que podiam visitar-nos quando quisessem. E, nas férias, também podíamos ir visitá-los. Mas Edneia não esconde as dificuldades que uma criança enfrenta na gestão desta mistura de sentimentos. “Por vezes, era difícil entender a existência de duas famílias, claro que o coração fala mais alto. Mas aprendi muito com a vida na Aldeia, pude estudar e fazer o ensino secundário e depois a faculdade, pude ter uma vida melhor, naturalmente. E hoje sou o único dos filhos da minha mãe que tem um curso superior, mas espero que os meus outros irmãos possam também vir a ter.”

Crescer numa bolha
Edneia reconhece a gratidão para com as Aldeias Infantis SOS, apesar de apontar vantagens e desvantagens. ” Na Aldeia, crescemos numa bolha, somos protegidos de todas as formas e lá aprendemos a fazer de tudo e mais um pouco, lavamos a nossa roupinha, com oitos limpamos a casa, aos 12 já cozinhamos, fazemos workshops e trabalhos variados, mas viver sozinha é uma coisa bem diferente. Quando vim para o Brasil com 18 anos eu já sabia cozinhar, já sabia limpar, etc., aprendi a ser autónoma desde pequena, mas já para gerir dinheiro, viver num país diferente, é outra coisa. É como em Cabo Verde, sair da Aldeia e viver numa comunidade, é totalmente diferente. Mas estou muito grata à Aldeia e tenho muito orgulho de parte da Aldeia”, conclui.
